sábado, 28 de maio de 2016

REFLEXÕES SOBRE A CRISE


26/05/2016

Temo que o êxito policial da Lava-Jato não seja suficiente para enfrentar a corrupção sistêmica.

O PT foi criminalizado em primeiro lugar, porque estava no governo. Talvez, se não estivesse lá, poderia sê-lo em último. Inclusive do ponto de vista em que o conceito de corrupção pode ser outro que não o definido durante a hegemonia do capital e a ordem jurídica da burguesia.

Mas assim ocorreu e temos que avaliar a situação com realismo.

Ora, se o êxito policial não pode abranger a corrupção sistêmica sem acabar com toda a política brasileira, só ficaria de pé o poder desproporcional da usurpação midiática, que não é institucional como concessão do governo. A mídia arrasando tudo, não poderia governar o país !

Diante da anomia em perspectiva, tão ao gosto dos ditadores, quem sabe o melhor fosse associar de alguma forma :

1) A continuidade da Lava-Jato;
2) A necessidade de reformas, inclusive e principalmente da reforma política.

Para tanto necessitaríamos de mais união entre todos os brasileiros, quando vai se tornando, mais ou menos óbvio, que é o capital nacional-transnacional que nos chantageia à submissão continental, mas agora, sem guerras mundiais ou a guerra-fria.

Então, porque ele vem de novo ? Arriscaria dizer que pela acumulação destrutiva e militarista que está a sonhar em colocar assessores locais em Moscou e em Pequim, como se percebe pelos confrontos no mar Negro, em Tartus na Síria, as tensões entre Israel e os palestinos, Israel e o Irã, Índia e Paquistão e, no mar da China, Formosa e o Japão, mais as Coréias entre si.

Isso e as eleições nos EUA, em Julho e Novembro, refletem-se demasiado entre nós e “datam” a nossa crise através de deploráveis coincidências.

A integração latino-americana passou a contestar a subordinação econômica dos latinos ao capital norte-americano, ao estilo de um “monroismo”, pelo BRICS, a Unasul, a Alba, o Mercosul , agora, versus a OEA, que recua diante dos interesses do capital. Macri, na Argentina, admite duas bases americanas em seu território ! Será para conter o Estado Islâmico na Tríplice Fronteira ?

Resta saber se o bolivarismo representa tanto perigo para os EUA e, internamente, para as nossas instituições democráticas, ou ele surge como tal na medida que o capital infiltrado em todo o canto o sabota pelo trabalho de sapa e o arrasta para a crise econômico-política e a desmoralização dos líderes no conhecido estilo dos golpes militares, midiáticos e parlamentares. Cria a situação, e a denuncia como se espontânea fosse.

As démarches de política externa, portanto, são muito importantes, já que não temos mais Hitler ou Stalin vivos. E tais fatos seriam bons argumentos para quem quer nos opor aos seus concorrentes de mercado, e não mais grandes inimigos políticos.

O capital nacional-transnacional não teria o direito de “requisitar” a América Latina como aliada incondicional na conquista do mundo todo. Aqui observo não haver uma coincidência absoluta entre o capital nacional-transnacional e os EUA, embora exista tal miopia fundamentada no desejo de alguns de que assim o seja inapelavelmente. Eu quero ter mais esperança...

Unidos, os brasileiros terão que se colocar diante dos desafios, agora menos da ALCA e do NAFTA, do que das Alianças do Pacífico e do Atlântico. A acumulação do capital em globalização expansiva quer conquistar todo o mundo ! E parece vai colocar o fulcro no isolamento territorial e político, mais a tomada econômico-financeira das últimas áreas não-capitalistas, isto é, de capital estatal ( Rússia) e socialismo de mercado ( China), externamente.

É, quiçá, o que está ocorrendo. Da nossa parte, surgiu com o governo interino, nova política externa no velho estilo descrito por Naomi Klein em “A Doutrina do Choque” :

1) Corte de gastos;
2) Privatizações;
3) Desregulamentação de mercado.

Há um cotejo com a política externa anterior e ele merece ser bem estudado, sem fatalismos e subserviências. O materialismo dialético é fundamental na categoria social. Estamos enfrentado o complexo industrial –militar dos EUA, enquanto o braço armado do capital em acumulação pelo mundo.

O momento mundial não é bom, pois os candidatos à eleição em Novembro não nos parecem oferecer boa perspectiva. Um muro na fronteira com o México, por ex., é um muro na fronteira com toda a América Latina. E podemos dizer, como já se disse : “Tão próximos dos Estados Unidos e tão longe de Deus.” Ou “ tão próximos do capital norte-americano e tão longe de Deus”. A globalização financeira aproximou-nos, afastando ideologicamente.

Seria assim ?


Fernando Neto

Ilvaneri Penteado  -  Jornalista  -  Rio de Janeiro


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