Quanto mais a parcela jovem e nem tanto jovem é predominante numa sociedade ocidental, como a nossa, por exemplo, os habitantes idosos sofrem com a falta de atenção e até discriminação mesmo. Aqui, os brasileiros idosos vêm se tornando, cada vez mais, um grupo grande na sociedade. Mas, ainda longe do destaque que têm os idosos nos países mais desenvolvidos, ou seja, os países de capitalismo avançado.
Lá os costumes, o cuidado em evitar a
gravidez, a perda de poder das religiões com seu irresponsável "crescei e
multiplicai-vos" sem qualquer parâmetro, o acesso à cultura, aos teatros,
ao lazer em geral, fazem com que o sexo perca sua qualidade de “diversão”
existente nas regiões mais pobres. Consequentemente de procriação.
No Brasil de hoje, a taxa de
crescimento populacional é cada vez menor o que colabora para o aumento do peso
dos idosos na sociedade. Mas, estamos longe dos padrões europeus, do capitalismo
desenvolvido.
Por razões culturais e outras que não
cabe avançar aqui, o padrão oriental no trato e respeito aos idosos nada tem a
ver com o ocidente. É só atentarmos para a idade dos líderes dos países
orientais para constatarmos a importância dos idosos naquelas sociedades. Até
alguns anos passados, Mao Tse Tung, Zho Enlai, e outros membros da cúpula do
governo chinês eram homens que poderíamos chamar de provectos. Assim como Ho
Chi Min no Vietnam, e dirigentes japoneses, etc. Isto mostra que, naquelas
paragens, o saber e a experiência dos idosos eram, e ainda é levada em conta.
Voltando o ocidente, por aqui, nas
regiões mais atrasadas onde a taxa de crescimento da população é grande, não
existe aquele respeito oriental pelos idosos. Ao contrário, eles são alvos de
preconceito, de falta de consideração de condições existenciais mais dignas,
salvo as exceções.
Conversando outro dia com um velho
amigo, a quem nomearei como Antônio, queixava-se ele dos seus filhos Márcia e
Sílvio que não lhe davam a atenção de que necessitava. Como sua esposa era
também idosa quanto ele, sentia falta de alguém com quem conversar e passar o
tempo. Sua companheira, como algumas outras pessoas, não sente falta de
companhia, de alguém para conversar. Contenta-se em voltar-se para suas
ocupações e lazer que, por vezes, não incluem o velho companheiro que fica a
ver navios...
A filha Márcia trabalha em uma fábrica,
era casada, tinha filhos, e precisava lutar firme pela renda dado o marido
estar desempregado. Desempregado no tempo dos Golpistas está se tornando de
exceção em regra. Todavia, o que importa é que a Márcia precisava fazer a
receita total do casal. Assim, pouco ou nenhum tempo dispunha, ou pensava que
não dispunha, para conviver com o velho pai.
Seu filho mais velho, o Rogério (aqui
Márcia e Rogério são também nomes fictícios) estava bem melhor de vida do que a
Márcia, mas, ainda estudava na Universidade em busca de futuro melhor, embora
dispusesse de uma receita que lhe permitia uma vida de conforto e lazer.
Entretanto, apesar disso, Rogério não se lembrava de visitar o velho pai,
ocupado que estava na atuação política e sindical a qual consumia considerável
parcela do seu tempo fora do trabalho. Fora da produção de renda.
Mas, apesar de fazer tais considerações,
Antônio achava que, da parte de ambos, havia, também, uma despreocupação com
seu velho pai. Achavam que ele tinha amigos e parentes que poderiam, ou
estariam, visitando-o e, com isso, ocupando seu tempo disponível. Mas, segundo
ele, não era bem assim, como eles supunham que as coisas realmente aconteciam.
A partir daqui as considerações de
Antônio deixaram de ser pessoais para adquirirem um tom geral. De fato os
jovens empenhados na construção de sua vida e futuro, dão pouca atenção aos
velhos. Acham que, amanhã terão tempo para os pais, mas esse amanhã vai se
tornando com o tempo cada vez mais distante. Até que... Até que alguém morre e
os sonhos vão para o beleléu...
Além disso, os jovens tendem a
considerarem-se com escolaridade e conhecimentos superiores aos velhos o que,
muitas vezes, leva a subestimação e desconsideração da importância deles, do
que eles falam e pensam e, às vezes, não é bem assim.
Especialmente quando os velhos que
conhecem, ou seus pais, são pessoas "normais". O “normal” aqui é
aplicado ao cidadão que cuidou de sua vida, de sua profissão, sem militância
política, artística, cultural ou intelectual. Poderíamos chamar de um cidadão
comum.
Eu mesmo que não sou
"normal", sinto a discriminação nos atos de minha profissão. Quando
visito um cliente ou candidato a cliente desconhecidos, ao chegar lá sinto um
mu chocho no ar da parte dos desconhecidos, uma quase rejeição. Claro que,
quando começo a falar tal clima vai rapidamente desaparecendo e substituído por
outro de respeito e até admiração. Tal fato, todavia, mostra a dimensão do
preconceito contra idosos.
Então, o preconceito, a subestimação e
até a desconsideração existem mesmo em níveis diversos. E, claro, ocorrem com
determinada intensidade em cada situação concreta, claro. Porém, são como
"las brujas que las hay las hay’...
Quando jovem, reflito hoje, em que pese
minha intensa atuação profissional e, sobretudo, política, não dispensei a
minha velha mãe hoje já falecida, a atenção que ela merecia enquanto idosa e
mãe. Naquela época, justificava para meus botões que a luta pelo socialismo,
pela libertação do proletariado tudo justificava. Só que, se fosse mais
cuidadoso, se levasse em conta que o tempo só marcha adiante, sendo impossível
fazê-lo retroceder, teria arranjado ocasiões, e facilmente, para conviver mais
com ela. Hoje, meus amigos, só posso lamentar, pois não tenho como rodar o
tempo para trás. É remoer as lamentações e o decorrente remorso de não ter sido
mais habilidoso na arte de “arranjar tempo” quando devia e podia.
Esse desabafo além do cunho científico
e cultural dele, quem sabe poderá servir para as pessoas jovens que tenham
pais, parentes ou amigos, necessitando de um carinho, avaliarem melhor a
questão. Uma coisa é certa, se não vivermos o que devemos e podemos no agora,
amanhã poderá ser tarde...
E aí, como dizia o locutor esportivo
Osmar Santos, “não adianta chorar, a nega tá no barbante”...
Zé Augusto

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